Não conheço Elie Horn. Mas li muito sobre seu gesto, de doar 60% de sua fortuna para a filantropia. Um ponto fora da curva neste País mediano. Uma notícia diferente, neste País de notícias parecidas. Por isso escrevo sobre ele.

Ele conta que a mulher, de inicio, não gostou muito da ideia. Talvez pensasse que era um desperdício. Que ele merecia desfrutar da riqueza feita nestas cinco décadas, desde a criação da Cyrela. E que no fim era melhor deixar para os filhos, como a maioria costuma fazer. Horn manteve sua posição. Os filhos tiveram boa formação e já andavam no comando da empresa. Qual a vantagem de herdar meio bilhão a mais?

A pergunta é difícil de responder. Há quem sinta um secreto prazer de dispor de uma boa conta bancária. Dessas com muito, mais muito mais do que se pode gastar, ao longo de uma vida. Outros concluem que se pode fazer coisa melhor. Ajudar a erradicar uma doença endêmica, combater a subnutrição, construir escolas, coisas assim. É um pouco abstrato, eu sei, mas foi por aí a escolha de Elie Horn. E por isso ele foi o primeiro brasileiro a assinar a The Giving Pledge.

The Giving Pledge é uma campanha lançada em 2010 por Bill Gates e Warren Buffet. É aberta a qualquer pessoa. Basta ter um bilhão de dólares e assinar uma carta prometendo doar metade – ou mais – para projetos humanitários. 138 pessoas, mundo afora, já aderiram. O Brasil tem 54 bilionários, mas nenhum ainda tinha tomado a coragem.

Horn justifica sua decisão com base na religião. É um judeu não apenas de tradição, mas de fé. Tudo ótimo, mas minha tese a seu respeito é um pouco distinta. Vejo Elie Horn como representante de uma nova geração de mecenas que reconhece a grande transição do nosso tempo, de um mundo de escassez para um mundo de abundância. E intui que não faz sentido deixar tanta gente pelo caminho.

É possível que Horn não tenha lido o último e brilhante livro de Peter Singer, The most good you can do, ainda sem tradução no Brasil, mas suas ideias parecem perfeitamente coincidentes. Singer não é religioso. É um filósofo racionalista e pragmático. Denominou sua tese de “altruísmo efetivo” e hoje é um dos pensadores mais influentes da filantropia global.

Singer e Horn parecem coincidir em algumas ideias bastante simples. A primeira diz que você deve tentar fazer o maior bem que puder, ao longo da vida. O bem para “estrangeiros”, para gente que você não conhece. Vai aí o segredo de uma vida ética. Singer dá o exemplo de Henry Spira, pioneiro dos direitos dos animais, que lhe disse, antes de morrer: “na hora final, quero saber que deixei este mundo melhor para os outros”. Horn escreveu quase o mesmo, quando assinou a sua carta: “a única coisa que levamos dessa vida”, disse ele, “são as boas sementes que plantamos neste mundo”.

Surge aqui a segunda ideia: fazer o bem para os outros é um jogo de ganha-ganha. Faz bem para os outros e para você também. Altruísmo e egoísmo não estão em contradição. Singer conta que Hobbes, o grande filósofo do egoísmo racional, certo dia foi cobrado por dar uma esmola a um mendigo, nas ruas de Londres do século XVII. Retrucou dizendo que isto melhorava o seu estado de espírito, e era perfeitamente coerente com o seu interesse racional.

Há uma tonelada de pesquisas, mundo afora, mostrando que o dinheiro, a partir de uma certa quantidade, produz quase nenhuma felicidade. Angus Deaton e Daniel Kahneman, dois vencedores do prêmio nobel, fizeram uma pesquisa concluindo que são imperceptíveis variações positivas de felicidade a partir de uma renda anual de 75 mil dólares. Uma pesquisa recente da Gallup, em 136 países, perguntou às pessoas: você fez alguma doação à filantropia no mês passado? Em 122 países, era positiva a correlação entre quem respondeu “sim” e quem se dizia significativamente mais feliz. Quem sabe as pessoas doem mais por que são mais felizes. Quem sabe felicidade e generosidade se retroalimentem. Cada um pode avaliar.

No caso de Horn, a escolha parece evidente: o sujeito tem 71 anos e um bilhão de dólares. O que o faria mais feliz: usar 60% desse valor para ajudar milhares, quiçá milhões de pessoas, ou morrer, daqui a algum tempo, com essa dinheirama toda na conta? A conclusão é tão evidente que surpreende não seja seguida por mais pessoas, e não somente por bilionários.

A terceira ideia diz que, para fazer o melhor pelos outros, é bom ser um tipo bem sucedido. Você pode imaginar que Deus ou a natureza lhe deram certos talentos. Descubra quais são e faça o melhor possível. Dá na mesma substituir “talentos” por “vocação”. Horn, por exemplo, descobriu que não era um intelectual. Seu negócio não era escrever ou fazer palestras, mas comprar terrenos e construir edifícios. Isso e quatorze horas de trabalho por dia fizeram com que, neste final de 2015, ele pudesse assinar a The Giving Pledge.

Sua decisão veio junto com o anúncio de Mark Zuckerberg doará 99% de sua fortuna. O mesmo que já fizeram Warren Buffet e Larry Ellison, criador da Oracle. O único detalhe é que Zuckerberg tem apenas 31 anos. Sua estratégia é doar um bilhão por ano, através de uma empresa criada apenas para gerenciar o dinheiro e escolher bons projetos.

Vai ai a quarta ideia, que diz respeito à eficiência. Não basta doar, é preciso que o modelo de doação seja sustentável ao longo do tempo. O segredo é a instituição dos chamados endowments. Nenhum bilionário que se preze sairia simplesmente distribuindo o dinheiro entre milhares de projetos. A estratégia é formar um fundo financeiro, sob gestão profissional, e converter os resultados obtidos em iniciativas sociais. É assim que funciona a Gates Foundation, o Carnegie Endowment e outras milhares de fundações americanas.

O ponto é que há um novo conceito em gestação: a riqueza fluída. O jogo é ganhar e compartilhar, como exercício de liberdade e não por imposição do Estado. Soma-se a isso um componente existencial: as pessoas sabem que viverão mais e desejam que seu tempo faça sentido. Percebem que a história se move rápido e querem participar da grande transformação. E tem muita informação, e logo bons exemplos a seguir.

Quem sabe Peter Sloterdijk esteja certo quando diz que, no século XXI, os ricos é que transformarão o mundo, ao contrário do que se imaginava no século passado. E Jeremy Rifkin tenha acertado quando falou na emergência da civilização da empatia.

Talvez tudo isto seja um pouco otimista demais, mas desconfio que esteja ficando cada vez mais fora de moda entesourar dinheiro e ficar esperando para, um dia desses, deixar este mundo com a sensação de que ficou faltando alguma coisa.

Artigo publicado originalmente na Revista Época em 14/12/2015.

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