1- Como você avalia a articulação do governo com o Congresso?

Bolsonaro não compôs o governo distribuindo ministérios para os partidos, de modo que não construiu uma base orgânica no Congresso. Este é um dado superestimado pelos seus apoiadores e substimado, ou ignorado, por seus adversários. Mas é um fato. Quando assistimos à desintonia entre os partidos do Centrão e o Governo, como neste episódio da inversão de pauta da CCJ, acho curioso escutar gente experiente sugerir que “falta diálogo, falta coordenação”. Isto pode ser verdade, em uma medida secundária. Mas o fato crucial é que o governo não tem rigososamente o que cobrar dos partidos potencialmente aliados, pelo simples fato de que nada, ou praticamente nada, ofereceu em troca. Vai aí uma dupla ilusão. De parte do governo, a ilusão de que coisas como a pressão da sociedade, o convencimento ou a liderança popular de Bolsonaro bastaria para mover esta ideia vaga da “nova política”. De outro, a ilusão comum, em especial na academia, de que a solução está em algum lugar do passado, que bastaria ao governo “negociar” com o Congresso, ceder, distibuir os ministérios a 12 ou 13 partidos, esquecendo-se que foi exatamente este modelo que se esgotou, na política brasileira, e foi amplamente rechaçado pela sociedade, nas últimas eleições. Não há saída fácil para o impasse brasileiro. Somos uma sociedade de baixo consenso, diante de uma reforma difícil, que contraria interesses poderosos. Dizer que cabe ao governo resolver, trocar cargos e emendas por votos, no Congresso, não passa de um discurso cínico, pois no instante em que o Governo fizer isto, estas mesmas pessoas dirão que se trata de um governo que se corrompeu, se vendeu, traiu seus compromissos. Nos tornamos um País autofágico, no qual o ódio e a pequena richa política parecem ter passado muito à frente de qualquer coisa que diga respeito a objetivos comuns e de longo prazo.

2 – E qual seria o papel da oposição na articulação?

A oposição está onde sempre esteve, desde a redemocratização, com exceção dos 13 anos da esquerda no poder. Seu foco é inviabilizar o governo, de qualquer jeito. Nós já nos acostumamos tanto com a ideia de que não cabe qualquer papel construtivo à oposição, na democracia, que ninguém mais espera uma atitude diferente. Isto já foi diferente, no passado. O PSDB e o PFL apoiaram a reforma da previdência de Lula, em 2003. Não vejo espaço para que algo nessa linha aconteça, no Brasil atual. O PT pautou a campanha pela ideia de deslegitimação de Bolsonaro, Haddad se recusou a cumprimentar o vencedor das eleições, na noite do pleito, e o partido não compareceu à posse do presidente, no Congresso. Esta foi e será a tônica do centro da oposição, até o fim do governo. Ciro e algumas novas lideranças do PDT ensaiam alguns movimentos na direção de um diálogo mais amplo, mas o fato é que lhes falta base social.

3 – Traçando um comparativo entre o governo Bolsonaro e gestões anteriores, qual é a sua avaliação a respeito dos primeiros 100 dias?

Bolsorado representa um governo de ruptura, como foram Collor, em 1990, e Lula, em 2003. A arrancada de Collor foi um conhecido desastre, e Lula surpreendeu positivamente, equilibrando uma política de austeridade e reformas, no campo econômico, e uma intensa agenda social. Bolsonaro fica pelo meio do caminho. Sua equipe econômica é coesa e qualificada, o ministério, de um modo geral, tem um perfil técnico e o projeto de reforma da previdência surpreendeu pela abrangencia e correção técnica. Mas há problemas evidentes: o governo claramente não tem consenso sobre a agenda de privatizações, e claramente não sabe o que fazer com temas importantes como a reforma tributária, reforma do Estado e a educação. E mais: não tem uma agenda de reforma do sistema político. Temos 31 partidos no Congresso, o maior grau de dispersão política entre as democracias, e o governo não parece minimamente preocupado com isto. É evidente que também faltou habilidade, na condução política, e um modelo realista de como lidar com o Congresso.

4 – O núcleo do governo é formado por grupos com posições distintas. Há os militares, um grupo mais ideológico e a área econômica. Como avalia que a relação entre esses grupos impactou os primeiros dias do governo? Essa relação pode ser melhorada?

Não há propriamente posições ou grupos organizados, no governo. O governo não conta sequer com um partido organizado, em sua base de sustentação. A votação da PEC vinculando as emendas de bancada, na Câmara, foi um sinal evidente de desarticulação, com a líder no Congresso votando de um jeito, e o líder do partido, de outro. Isto vinha se tornando regra na atuação do governo, no Congresso, até a vontação do relatório na CCJ. Alí temos uma mudança qualitativa. No plano do executivo, vejo outro cenário. Há pouco consenso sobre temas centrais, como a agenda de reforma do Estado, mas não propriamente um conflito Escaramuças são normais, em qualquer governo. Não dá pra achar que a cada bate-boca, na internet, o governo está em crise. Os militares tem se consolidado como núcleo moderador do Governo, mas não expressam uma visão de Estado ou de país. A equipe econômica tem uma visão liberal como nunca se viu, em nossa história, mas é evidente que lhe falta força política e que sua agenda não é propriamente a do governo. O chamado segmento conservador é menos relevante e dono de uma não-agenda. O Brasil não aceita, por óbvio, nenhum recuo em temas que possam arranhar a laicidade do Estado, e projetos como escola sem partido ou redução da maioridade penal não irão avançar, no Congresso. Sobra muita retórica e estridência vazia, no mundo digital, que no conjunto me parece mais prejudicar do que ajudar ao governo.

5 – Os filhos do presidente estão muito envolvidos no governo federal. Em outros anos vimos escândalos relacionados a suposto enriquecimento ilícito, como no caso do filho de Lula, mas não uma intervenção direta no governo. Políticos e especialistas já criticaram tal atuação. Na sua opinião, isso tem sido prejudicial?

Penso que é preciso diferenciar as coisas. O filho de Lula não era um agente político; Os filhos de Bolsorano são. Um deles é senador, outro o deputado federal mais votado do País. Eles são líderes do partido do governo e da coalisão que está no governo. Logo, eles necessariamente terão influência no governo, goste-se ou não. Caso Ciro Gomes tivesse sido eleito, é presumível que Cid Gomes seria um ator político influente no governo. O caso de Carlos Bolsonaro é diferente. Parece claro que, tanto no caso da demissão do Ministro Bebiano, como agora, no ataque ao General Mourão, ele cumpre o papel de porta-voz informal do Presidente. Como o comportamento se repete, é claro que não se trata de uma casualidade, mas de um método. Bolsonaro opta por criar uma espécie de espetáculo público para repreender seu Vice-Presidente e resolver assuntos que deveriam ser tratados à portas fechadas, no Planalto. Em relação a Mourão, o erro vem da montagem do Governo. O Vice deveria ter uma função definida e não ficar vagando por aí, claramente insatisfeito com o tratamento que recebe no governo, buscando alguma mídia e a imagem de “contraponto razoável” ao Presidente. Há, na minha visão, um grande erro estratégico aí. No mais, boa parte do que vejo, sobre este tema, faz parte do que gosto de chamar de “era da irrelevância”. Gastamos nosso tempo discutindo o que o filho do presidente fazia no banco de tràs do Rolls Royce, na posse, e o que o outro fazia sentado na poltrona do Salão Oval, na reunião com Trump. Isto é divertido, nas redes sociais, mas completamente inútil.

6 – Jair Bolsonaro se elegeu com base em amplo engajamento nas redes sociais. No governo, suas posições têm sido alvo de críticas e algumas tiveram até repercussão internacional. Como você vê o uso das redes sociais pelo presidente?

Muita gente não se dá conta, mas Bolsonaro é o segundo chefe de Estado com maior engajamento digital, no plano global. A internet é o ecossistema em que ele forjou sua liderança e o levou à presidência. Neste ambiente, a mensagens mais provocantes e agressivas tendem a gerar maior engajamento. Não é por acaso que sua mensagem mais curtida, neste período, foi exatamente o “golden shower”. Isto diz muito sobre nosso presidente, mas diz muito também sobre nossa democracia digital. O que se observa é que, após o episódio do Carnaval, Bolsonaro migrou para um perfil mais focado na agenda do governo, nas redes sociais. Bolsonaro é um líder polarizador de uma democracia polarizada. O País teve a oportunidade de eleger candidatos com perfil moderado, bem comportados na internet, e que falavam em unir o País. Optou por Bolsonaro. Me parece um tanto ingênua a ideia de que, após eleito, ele fosse se transformar em um líder pacificador. E ninguém acredita, tenho certeza, que as pessoas que hoje o criticam iriam apoia-lo, se ele decidisse agir assim. Penso que Bolsonaro errou, em muitos momentos, nas redes sociais. Mas isto é apenas uma opinião. Nada garante que ele estaria melhor se ele tivesse optado por um outro caminho, quem sabe agindo de modo polido e reservado, como fez Michel Temer ao longo de seu governo.

7 – governo obteve uma vitória na CCJ mas foi mais difícil do que o esperado, considerando as alterações exigidas e o tempo que levou para que isso acontecesse. Qual o legado disso para os próximos projetos, tanto para o governo quanto para a oposição? As ilusões citadas por você devem se esvair a partir de agora?

A vitória mostrou algo bastante objetivo: a reforma da previdência é politicamente viável, no Congresso. Foram 73% à favor e 27% contra. No plenário, serão necessários 60% de votos. É evidente que a CCJ não é uma expressão perfeita da correlação de forças na Câmara, mas serve como um indicativo. A oposição simplesmente não cresceu e a reforma obteve o apoio de 15 partidos representados na Comissão. E aí reside um ponto: não se trata de 15 partidos da base do governo. Este conceito foi superado. Se trata de uma base política da reforma. Não penso que esteja errada a ideia de compartilhar a responsabilidade da reforma com o Congresso. É a via possível para sua aprovação. O governo ampliou as concessões no varejo político e, principalmente, não atrapalhou. Quanto às dificuldades, ninguém deve imaginar que fazer uma reforma deste tamanho, no Brasil, seria fácil. Perceba-se que, dois anos depois, ainda estamos discutindo aspectos da reforma trabalhista. O Brasil é um país procrastinador, resistente a processos de modernização. Por isso acho que a reforma está caminhando bem. Ela se descolou do governo e as alterações feitas na CCJ são estruturalmente irrelevantes, para o projeto. Com certeza outros pontos serão negociados. É assim que funciona na democracia.

Entrevista por Carla Bridi e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo
Fernando Schüler é cientista político e Professor do Insper

 

COMPARTILHAR
Artigo anteriorAS DORES DO PARTO DE UM NOVO COMEÇO
Próximo artigoA era da irrelevância
Atualmente é titular da Cátedra Insper Palavra Aberta. Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com Pós-Doutorado pela Columbia University, em NY. É Professor em tempo integral no INSPER, em São Paulo, e Curador do Projeto Fronteiras do Pensamento. Contato: fschuler@uol.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here