O país parece ter decidido ir para o tudo ou nada. De alguma maneira, vamos repetir a polarização de 2014, apenas com uma temperatura mais elevada. Na dança das cadeiras da democracia brasileira, o PSDB perdeu o lugar para Bolsonaro. Perdeu por seus próprios erros e indefinições, mas também porque mudaram os termos do debate político.

Ao contrário de 2014, o maior protagonista desta eleição é um tipo alheio ao pacto da transição democrática dos anos 80. Dilma ou Aécio, Lula ou FHC, podiam divergir sobre muitas coisas, mas todos chamavam 1964 de golpe e ninguém discutia o envolvimento de Brilhante Ustra com a tortura.

Bolsonaro é expressão de uma outra história. Sua narrativa do Brasil é distinta de tudo que aprendemos, nos últimos trinta anos, nos livros didáticos. Seus heróis estão do outro lado. Ele é, de fato, um outsider da redemocratização brasileira.

Diferente de 2014, o centro dessa eleição não é o debate sobre economia ou políticas públicas. Ninguém, de fato, está prestando muita atenção em temas aborrecidos como reforma da previdência, tributária, déficit público ou como resolver a tragédia de nossa educação pública.

 

Mesmo o tema das privatizações, que sempre produziu algum barulho, hoje está fora do jogo. Paulo Guedes sugere privatizar mais de cem estatais, e ninguém dá muita bola. Haddad propõe dar marchar ré na reforma trabalhista, regular a mídia e, quem sabe, convocar uma nova constituinte, e tudo parece dar sono.

Em boa medida, com razão. Os eleitores aprenderam a não levar muito a sério programas de governo, depois de sete eleições. Bolsonaro promete uma renda universal de cidadania a todos os brasileiros. É isso mesmo: a proposta do senador Suplicy. Está lá, escrita, no seu programa de governo, mas duvido muito que ele sequer saiba disso.

O general Mourão é nosso campeão. O homem que nos salva do tédio. Suas ideias sobre o 13º salário ou sobre a constituinte de notáveis não fazem muito sentido e não passam de pedaços de retórica soltos ao vento. Mas despertam mais atenção do que qualquer coisa bem estudada que o chamado centro político tenha dito, ao longo do debate eleitoral.

Vai aí um subproduto de uma disputa pautada pela guerra cultural. O centro político desaparece porque sua agenda “racional” simplesmente está fora dessa eleição. Alckmin pode falar em reforma política, soletrar suas realizações no governo de São Paulo, e Meirelles contar como debelou a inflação e formulou a PEC do teto. Sono.

O resultado disso tudo é que em boa medida assinaremos um cheque em branco, nestas eleições. Se o debate não é (quase nada) programático, o que exatamente estamos elegendo?

Ok, é mais divertido ficar caçando bruxas, na internet, e chamando os oponentes de “leprosos morais”, como li dias atrás de um ilustre professor, tecendo considerações delirantes sobre a o “novo fascismo”, a destruição da família ou o próprio fim da civilização, caso a turma do outro lado vença as eleições.

Mas tudo isso não passa de “bullshit”. Estética do exagero e destempero típicos do ecossistema digital, com o qual ainda não aprendemos a lidar.

Na prática, o novo presidente, seja ele Haddad ou Bolsonaro, tomará posse em janeiro, formará uma base no Congresso (fundamentalmente com os mesmos partidos), e apresentará ao país uma agenda de reformas.

Que agenda é esta é o que menos interesse desperta discutir, nesta campanha. Parecemos todos felizes em brincar de profetas do caos e guerreiros de posições extremas, nas redes sociais. Mas a conta fatalmente virá, logo adiante.

(texto originalmente publicado na Folha de São Paulo, em 04/10/18)

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