Eufrásia era sinhazinha da fazenda de Hera, neta do Barão de Itambé, herdeira dos Teixeira Leite, nobreza do café e do embrionário capitalismo brasileiro, no triste século XIX. Quando o pai morreu, no início dos anos 1870, decidiu ser uma mulher independente e uma mulher do mundo. Foi para Paris, com a irmã, se fez investidora, multiplicou a fortuna que havia herdado. No meio do caminho teve um romance desses tórridos e enrolados, com Joaquim Nabuco, mas isso é outra história. No fim da vida, tinha ações de 297 empresas. Morava em um palacete, perto do Arco do Triunfo, e sua fortuna valia a coisa de duas toneladas de ouro.

Pouco antes de morrer, em um apartamento de Copacabana, em 1930, Eufrásia fez seu testamento, legando quase tudo que tinha para Vassouras. Dona Ana Esméria, sua mãe, queria que ela deixasse um bom bocado para os primos. Não era o que ela tinha na cabeça. Entre muitas coisas, mandou que cuidassem da Chácara de Hera, do hospital da cidade, que abrissem dois educandários, um para ensinar as meninas a “lavar, engomar, coser, cortar e bordar”, e outro masculino, para iniciar os meninos nas “artes mecânicas”. Tudo com o cuidado de dar 20 contos para os mendigos de Vassouras e 20 mil Francos para os de seu quarteirão, em Paris.

O futuro foi ingrato com as doações de Eufrásia. Os educandários tiveram fim melancólico. A unidade masculina acabou virando uma unidade do Senai. O instituto feminino fechou as portas quando as freiras se foram, no início dos anos 90. O hospital está lá, até hoje, decadente e endividado. A casa de Hera, ao menos, prossegue intacta. Virou museu, em 1968, e vale a visita a Vassouras. Para bancar a caridade, Eufrásia mandou liquidar seus bens, de modo a garantir “a importância em dinheiro necessária”. Comprou apólices da dívida pública, com juros de 5% ao ano. Não previu um detalhe: a hiperinflação brasileira, que ajudou a derreter seu legado.

Alguns anos antes, no lado norte da América, uma outra história se desenhava. Andrew Carnegie, o “príncipe do aço”, também vinha fazendo suas doações. Só que de um jeito diferente. Imigrante pobre, self-made man, Carnegie fez fortuna na siderurgia, na segunda metade do século XIX. Com 66 anos vendeu suas indústrias ao J.P Morgan e se tornou o maior filantropo americano.

Fez diferente de Eufrásia. Ao invés de dispersar seu dinheiro em doações assistenciais, optou por criar instituições. No coração de Manhattan, criou o Carnegie Hall. Tchaikovsky regeu sua Marche Solenelle, no concerto inaugural. Em Pittsburgh, na Pensilvania, criou o Instituto tecnológico que daria origem, muito tempo depois, à Carnegie Mellon University; criou o Carnegie Endowment for International Peace, muitas vezes escolhido como o melhor think tank do planeta. A síntese de sua estratégia foi a criação da Carnegie Corporation of New York, um trust instituído por Carnegie aos 76 anos para cuidar do que restava de sua fortuna (que não era pouco), e lidar com sua política de doações.

A história de ambos conta um pouco sobre o nosso atraso. É evidente que a Fortuna de Carnegie era imensamente maior do que a de Eufrásia. Não é este o ponto. E é também verdade que Eufrásia foi um ponto fora da curva, na história de nossa riqueza, e em especial na de nossas mulheres, até os inícios do século XX. Era uma financista, independente, com um traço cosmopolita, e ao final da vida agiu com generosidade. Doou tudo para a “caridade”, e é aí que se revela não apenas a suas limitações, mas o atraso evidente da formação brasileira.

Eufrásia poderia ter agido, como doadora, com a mesma sabedoria que o fez para acumular sua fortuna. Poderia ter criado uma corporação similar à estabelecida por Carnegie, em Nova Iorque. Bem administrado, talvez fosse hoje o maior fundo de filantropia do País. Não o fez. Investigar as razões disso eventualmente pode nos ajudar a entender quem nós somos. E a melhorar como País.

A primeira razão, penso, está na cabeça das pessoas. Talvez vá aí, para além das instituições e das quase três mil bibliotecas que construiu, a maior contribuição de Carnegie. Em 1887, ele escreveu um texto que se tornaria uma espécie de bíblia da filantropia americana, The Gospel of Wealth. Ele começa com uma defesa do livre mercado e da acumulação da riqueza, base do progresso moderno e único sistema possível (o contrário implicaria em “mudar a natureza humana”), mas seu ponto é outro. A questão crucial era o que fazer com a riqueza.

Há três opções. A primeira delas, tripudiada por Carnegie, é deixar para os filhos. É preciso deixar educação, não riqueza. Heranças gordas, para a prole, frequentemente são uma “maldição”. Algo feito mais por orgulho familiar do que preocupação genuína com o bem-estar dos filhos. Legar a riqueza ao morrer também seria um erro. Além do risco da má gestão, há o problema ético. “Morrer rico é morrer desonrado”, provocou. É preciso viver, e não apenas morrer, com um propósito. Carnegie achava inclusive que o Estado deveria dar um empurrão nisso, taxando as heranças. “Ao taxar pesadamente as propriedades no momento da morte”, dizia, “o estado marca sua condenação da vida indigna do milionário egoísta”.

A grande sacada, para Carnegie, era que os ricos convertessem sua riqueza ainda em vida, na plenitude de suas forças, para fins públicos. O segredo era aplicar o dinheiro de um jeito inteligente e evitar a qualquer custo sua dispersão. Vai aí uma visão ética da vida. Ganhar dinheiro no mercado, acumular riqueza e depois investir em coisas que melhorem o mundo e façam subir os botes que não conseguiram subir, com a maré. Criar bibliotecas públicas, por exemplo. Ele estudou em uma muito precária, quando criança. Mandou construir perto de três mil, ao longo da vida. A ciência, a paz global e a democracia eram coisas cruciais, na sua visão.

Coisa de 100 anos depois de sua última grande doação, Bill Gates e Warren Buffet criaram o Giving Pledge e transformaram a intuição de Carnegie em um movimento global. Um clube cujo critério de ingresso é muito simples: ser um bilionário e se comprometer a doar, em vida, no mínimo metade de sua fortuna. 221 já assinaram suas cartas, mundo afora. Por estes dias, li a carta do jovem bilionário da tecnologia português, José Neves, prometendo doar dois terços de sua fortuna. “A filantropia não é a norma cultural em Portugal”, ele escreveu, “onde se espera que o Estado providencie quase tudo”. Me lembrei de uma certa colônia.

Dos 70 bilionários brasileiros, só Elie Horn escreveu sua carta. Há gente se mexendo, por aqui, mas de algum modo continuamos mais atrasados do que Eufrásia. Dias atrás pensei nisso quando li um empresário bacana pedindo “mais impostos”. Ele sugere dar mais dinheiro para o governo administrar, mesmo – imagino – tendo acesso a informação sobre como as coisas são geridas em Brasília.

A raíz de nosso problema pode estar na formação histórica, mas o X da questão é a modelagem das instituições. Ao invés de instituições independentes e sem fins lucrativos, lastreadas em endowments em permanente expansão, como são as universidades da Ivy League (Harvard no topo, com seu fundo de U$ 40 bilhões), continuamos apostando no modelo de autarquias federais dependentes do erário público, em que ninguém paga, mesmo sendo bilionário, e a gestão obedece ao padrão burocrático herdado da era Vargas, polido no ciclo militar e consolidado, com chave de ouro, na Constituição de 1988.

Mas as coisas estão mudando. Meio século depois da morte de Eufrásia, o banqueiro Moreira Salles criou duas Instituições e dois endowments: o Instituto Moreira Salles e o Instituto Unibanco. Outros vieram depois. Muito poucos, na verdade, e timidamente. Talvez tenhamos hoje 30 fundos razoavelmente estruturados, contra mais de oitenta mil instituições do gênero, de tamanhos e formatos diversos, nos Estados Unidos. Talvez esteja aí a tradução mais objetiva do que se chama de “capital social”. Retrato de um País que também acreditou, como nossos patrícios, na máquina estatal, mesmo contra todas as evidências.

Devagar, vamos aprendendo. O sinal mais interessante disso são os fundos que vão sendo criados de baixo para cima, passo à passo, com a iniciativa de ex-alunos de universidades, como é o caso dos Amigos da Poli, ligado à engenharia da USP. O fundo hoje dispõe de perto de R$ 35 milhões e talvez seja o maior do gênero, no País. Iniciativas parecidas vão surgindo em vários estados. É tudo muito incipiente e com um paradoxo gigante: fundos privados, feitos da iniciativa das pessoas, gestão independente e visão de longo prazo, conectados a uma malha estatal estruturalmente ineficiente e em regra virada de costas para o mercado e a sociedade civil.

São as contradições brasileiras. Eufrásia queria educar meninas para “bordar e costurar”; Carnegie queria “colocar escadas ao alcance das pessoas, para que elas possam subir”. Eufrásia converteu seu dinheiro em títulos do tesouro; Carnegie em ações. Eufrásia esperou a morte para doar; Carnegie decidiu fazer tudo em vida. Eufrásia distribuiu para a caridade; Carnegie forjou instituições e endowments, multiplicando seu capital e projetando sua visão de mundo para muito além de si mesmo.

Ainda assim, saúdo Eufrásia, porque podemos, quase um século depois, refletir sobre seus acertos e erros. Refletir sobre o mato que cresce, no entorno de muitas de suas obras, em Vassouras, metáfora triste de nosso atraso. Mas também sobre as coisas que vem avançando, Brasil afora, em especial na cabeça de muita gente, e que ao tempo da colheita serão objeto de nosso orgulho.

(Publicado originalmente na Revista Veja, 2021)

 

 

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Atualmente é titular da Cátedra Insper Palavra Aberta. Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com Pós-Doutorado pela Columbia University, em NY. É Professor em tempo integral no INSPER, em São Paulo, e Curador do Projeto Fronteiras do Pensamento. Contato: fschuler@uol.com.br

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