A história é conhecida, e bastante constrangedora. Um fazendeiro é pego em um automóvel praticando sexo com duas meninas, de 14 e 13 anos. Condenado a 8 anos de prisão, recorre. Na segunda instância, é absolvido. O magistrado que relatou o caso diz que era “crível” que o sujeito confundisse a menina com alguém maior de 18 anos e que, afinal de contas, a menina era uma “bêbada” e “prostituta”. O Conselho da Criança e do adolescente lamentou o fato, dizendo que o estuprador merecia uma “pena exemplar”. E não existe “sexo consentido” com uma menina de treze anos. Está bêbada? Deve ser protegida, não abusada. Só um País inteiramente doente pode empurrar uma coisa dessas para baixo do tapete. Pois bem, um jornalista, Tiago Pavinatto, usou palavras fortes, em uma rádio, para se referir ao magistrado que relatou o caso. A emissora não gostou e mandou que ele se desculpasse. Pavinatto disse não. Terminou demitido. Seu gesto ganhou alguma notoriedade. Em um País em que o medo se torna o pão de cada dia, alguém disse não.

Pode-se concordar ou não com o gesto de Pavinatto. Muita gente acha que ele poderia ter feito uma crítica mais suave, e deve haver quem concorde, discretamente, com o magistrado. De minha parte, o que fascina é o gesto. O fato de que alguém, em um certo momento, decida pagar o preço de andar na contramão. E o faça em nome de algumas convicções. Ainda agora ando acompanhando o caso bem mais complicado de Jordan Peterson e sua disputa com a Associação de Psicólogos de Ontário, no Canadá. Peterson é um tipo politicamente incorreto e foi “condenado” pela Associação a fazer um “curso de reeducação digital” em função de meia dúzia de tuites sobre assuntos variados. Em um deles, Jordan diz achar que uma modelo obesa “não era bonita”; em outro, chamava o Justin Trudeau, o primeiro-ministro pop do Canadá, de “puppet”. Uma “marionete”, ou coisa assim, em função de decisões que ele tomou na pandemia. A associação decidiu que ele não estaria apto a atuar como psicólogo e exigiu que fizesse o tal curso. Jordan disse não. Recorreu à justiça e perdeu. Se for mesmo obrigado a fazer o curso, diz que transformará tudo em um espetáculo sobre a intolerância canadense atual. Caso isso aconteça, diria que será um strip-tease do ridículo contemporâneo.

Dizer não, por vezes, pode sair caro. Meu caso favorito é do Oscar Wilde. Ele namorava o Bosie, filho do Marquês de Queensberry, era casado e a homossexualidade era crime, na Inglaterra do final do século XIX. Wilde era uma estrela. Havia acabado de lançar “The Importance of Being Earnest”, era ovacionado nos teatros londrinos e tinha uma sedução parecida com Jordan Peterson pela ironia debochada de quem anda na contramão da cultura. O pai do rapaz um dia lhe mandou um bilhete agressivo, chamando Wilde de “sodomita”, em uma evidente ameaça. Wilde poderia ter recuado, mas disse não. Resolveu processar Queensberry ele mesmo, e a partir daí cavou sua desgraça. O processo virou, o Marques demonstrou facilmente que ele era, de fato, um homossexual, o que lhe rendeu dois anos de trabalhos forçados, boa parte do tempo empurrando um moinho, como um cavalo, na prisão de Reading. Jordan Peterson talvez ganhe alguns milhares de seguidores, com sua petulância. Wilde morreu à mingua, em um hotel barato, em Paris, poucos anos depois. É evidente que seu gesto se tornou icônico. Eu mesmo fui até o Cadogan Hotel, em uma noite quente de Londres, apenas para capturar um pouco da atmosfera em que Wilde passou sua última noite, antes da prisão. Consta que ele bebeu muito naquela noite, e por muito tempo mais um bandido do que herói, e tremendamente embaraçoso pronunciar seu nome, na Inglaterra.

Heroína mesmo foi Rosa Parks. O ônibus em que ela se recusou a levantar e ceder o lugar aos passageiros brancos conheci no magnífico Museu de História Afro-Americana, inaugurado pelo Obama, em Washington, e que ninguém deveria deixar de visitar. Naquele primeiro de dezembro de 1955, porém, em Montgomery, no Alabama, estado segregacionista do sul dos Estados Unidos, as coisas eram bem mais complicadas. Ela era costureira e ativista, mas fundamentalmente estava cansada daquilo tudo. Da humilhação cotidiana e sem sentido. E resolveu dizer não. O motorista chamou a polícia, ela foi presa, e a história é conhecida. Desencadeou um gigantesco movimento que, meses depois, levaria ao banimento da discriminação no transporte urbano na cidade. A história sugere uma imensa energia social em movimento, as longas marchas de cidadãos negros boicotando o transporte coletivo, a imagem de Martin Luther King triunfante, finalmente entrando pela porta da frente, em um ônibus dessegregado. Mas em um momento perdido naquela noite fria de dezembro o mais prudente teria sido obedecer a ordem do motorista, ir lá para trás, evitar a delegacia, a incerteza toda, ao invés de dizer não.

Poderia ir longe aqui, o tema é fascinante, mas não é o caso. Talvez poucas coisas definam melhor a nossa época do que o súbito gosto pela regulação da fala, da arte, das ideias, e logo pela censura, que tomou de assalto nossa cultura. A plataforma da FIRE, Foundation for Individual Rights and Expression, uma jovem organização defensora da liberdade de expressão no mundo acadêmico americano. Os casos de “cancelamentos” foram de 4, em 2000, para 145, ano passado, numa escala crescente. As razões, em regra, são triviais. Uma crítica ácida ao governador De Sanctis, da Flórida; um tuíte “antissemita” contra Israel; uma postagem sugerindo que a definição de mulher guarda alguma conexão biológica. Tudo me lembrou um pouco a querela teológica, sobre a natureza da trindade e coisas do tipo, que podiam levar alguém à fogueira, nos inicios da modernidade, e por um momento me vi perguntando se não estamos andando em marcha ré.

No Brasil, já vamos nos acostumando com a volta do cangote. Ainda esta semana li sobre a quase inacreditável censura ao “Joaquim Teixeira”, um personagem humorístico que nem o meu sobrinho de sete anos levaria à sério. Neste caso, consta que o autor resolveu não comprar briga. Fez um acordo, pagou multa, prometeu não brincar com certas coisas. Muita gente anda assim, e arriscamos nos tornar o País da retratação. Dos empresários “arrependidos” por suas opiniões políticas, da rádio processada por delito de opinião. Das plataformas digitais publicando pedidos de desculpas por emitirem sua opinião sobre o PL das Fakenews.
Em tempos como estes, é perfeitamente lógico dançar conforme a música. Sentar na cadeira que mandam sentar, demitir os jornalistas que dão problema, e por nada desse mundo desafiar o aristocrata de plantão, que de fato tem o poder de quebrar sua espinha, como o Marques de Queensburry fez com Oscar Wilde. De modo que não deixo de me surpreender com estes tipos que não se conformam. Independente de seus erros, de sua imprudência ou o que for, eles são os tipos que em um dado momento arriscaram perder empregos, perder amigos, nos lembrando que ninguém é dono da cultura, da lei, da verdade. E com isso ajudaram a forjar um mundo no qual “dizer não” seja fundamentalmente um direito, e não um ato de heroísmo. Por isso minha homenagem, aqui, singela que seja, a estes tipos que dizem não.

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Atualmente é titular da Cátedra Insper Palavra Aberta. Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com Pós-Doutorado pela Columbia University, em NY. É Professor em tempo integral no INSPER, em São Paulo, e Curador do Projeto Fronteiras do Pensamento. Contato: fschuler@uol.com.br

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